A inteligência artificial (IA) está mudando como as empresas tomam decisões, mas o maior desafio não é usar a tecnologia — é garantir que os conselhos de administração saibam questionar suas recomendações. Um estudo conjunto entre IBGC e FGVethics, ouvido por 141 conselheiros brasileiros, mostra que embora a IA esteja sendo adotada em conselhos, há lacunas na capacitação para avaliar os limites e riscos dessas ferramentas. O relatório alerta que a confiança excessiva pode levar à redução do pensamento crítico, como aponta uma pesquisa da Microsoft e Carnegie Mellon University: profissionais mais confiantes na IA relataram menor esforço para analisar dados de forma independente.
A velocidade com que a IA gera análises pode superar a capacidade dos colegiados de revisá-las. Por exemplo, se um conselho aprova uma recomendação baseada em algoritmos que usam os mesmos dados e premissas, a convergência não significa que as decisões são consistentes. A independência de julgamento precisa ser garantida: questionar hipóteses, buscar evidências contrárias e definir critérios para revisão são passos essenciais.
Quando a IA vai além da recomendação e executa ações automaticamente, o risco aumenta. Um relatório da Prosus, empresa holandesa de investimento em tecnologia, aponta que agentes de IA já estão sendo desenvolvidos por colaboradores, reorganizando como as decisões são tomadas. Nesse contexto, uma falha no sistema pode levar a erros irreversíveis antes que alguém perceba o problema. A supervisão exige critérios claros: quais decisões podem ser delegadas à IA, quais exigem autorização humana e como os resultados são monitorados.
Para preservar a governança, conselhos devem incluir no processo decisório um “pausa deliberada” — um momento para testar se as premissas da IA estão alinhadas com o impacto real. Isso é especialmente importante em escolhas de alto risco, como investimentos significativos ou decisões que afetam clientes e colaboradores. A automação não elimina a responsabilidade do colegiado: ela exige mais atenção à formação de julgamento humano.
Como isso afeta o seu bolso
Se você é acionista de uma empresa brasileira, a governança dos conselhos pode impactar diretamente sua carteira. Conselhos que não revisam as decisões baseadas em IA podem tomar escolhas arriscadas, como investimentos mal avaliados ou falhas operacionais. Isso afeta o valor da empresa e, consequentemente, os dividendos e ações.
A IA pode ser uma ferramenta poderosa, mas sua eficácia depende de quem a usa. Empresas que priorizam a supervisão humana e a formação crítica dos conselheiros tendem a ter melhor desempenho financeiro no longo prazo. Isso inclui evitar decisões precipitadas, garantir transparência nas análises e preparar os membros para questionar algoritmos que podem estar omitindo informações relevantes.
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