A divisão desigual da energia de Itaipu
O Brasil e o Paraguai compartilham a usina hidrelétrica de Itaipu desde sua inauguração em 1984. Por acordo, cada país tem direito à metade da energia gerada. Mas na prática, essa divisão nunca foi igualitária.
O Brasil, sexto maior consumidor de energia do mundo, consome 40 vezes mais eletricidade que o Paraguai. Em 2025, por exemplo, a parcela paraguaia da usina seria suficiente para atender todo o país durante um ano inteiro e ainda sobraria para três meses adicionais.
O impacto dos data centers no consumo de energia
Essa abundância energética está sendo aproveitada pelo Paraguai, que tem investido fortemente em projetos como o Iguazú AI City. Trata-se de um complexo de data centers com capacidade de até 1.300 MW de potência – quase quatro vezes a demanda anual da capital paraguaia, Assunção.
Data centers são grandes centros que abrigam milhares de servidores para processar dados e operar tecnologias como inteligência artificial (IA). Eles consomem uma quantidade imensa de energia. No caso do Iguazú AI City, a previsão é que o complexo consuma 3,4% da energia total gerada por Itaipu em 2025 – e até 15,6% quando atingir sua capacidade máxima.
O Brasil está se preparando para a mudança
A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) já considera que o aumento do consumo paraguaio pode reduzir significativamente a energia disponível para o Brasil. Especialistas alertam que até 2035, o Paraguai poderia consumir integralmente sua metade da produção de Itaipu.
“É perfeitamente possível que o Paraguai consuma integralmente sua metade da energia de Itaipu até 2035 ou mesmo antes”, afirma José Rosenblatt, especialista em assuntos regulatórios da PSR. Com isso, o Brasil terá que buscar alternativas para suprir a demanda, talvez pagando mais caro.
Como isso afeta o bolso do leitor
A dependência do Brasil por energia barata de Itaipu é importante para controlar os preços da luz. Hoje, a energia gerada pela usina custa R$ 221 por MWh – um valor bem abaixo dos R$ 307 cobrados pelas distribuidoras brasileiras.
Se o Paraguai consumir mais da energia de Itaipu, o Brasil terá que recorrer a fontes alternativas. Isso pode levar ao aumento nos preços da eletricidade, especialmente se as novas fontes forem mais caras ou menos estáveis.
O papel geopolítico e econômico dos EUA no Paraguai
O projeto Iguazú AI City conta com investimento de US$ 12 bilhões, sendo financiado por empresas paraguayas e americanas. Entre os principais parceiros estão a Crusoe, uma empresa norte-americana especializada em data centers para IA, e o Founders Fund, do bilionário Peter Thiel.
Além disso, o Paraguai aderiu à iniciativa Pax Silica, liderada pelos EUA, com o objetivo de fortalecer a produção de chips, minerais estratégicos e infraestrutura de IA. Essa aproximação política e econômica entre os países pode influenciar futuramente as relações comerciais do Brasil com o Paraguai.
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