Por José Paulo Bretas
A semana de 1 a 7 de novembro de 2026 juntou três pressões ao mesmo tempo: juros altos no Brasil, uma indústria que encolhe e um tombo das ações de tecnologia nos Estados Unidos. O Copom manteve a Selic em 13,75% e interrompeu o ciclo de cortes. A produção industrial de setembro caiu 0,8%. Na quinta-feira, a Nasdaq teve sua pior sessão desde abril de 2025.
Ao redor disso, o Paraguai viveu uma crise política e bancária, a inadimplência bateu recorde e a reforma tributária ganhou números concretos. Este resumo organiza os fatos por data, sem prever o que vem depois.
Juros: Selic mantida em 13,75%
Em 4 de novembro, o Copom manteve a Selic em 13,75% por unanimidade. A decisão interrompe o ciclo de cortes iniciado em março. O BV projeta novas reduções apenas em meados de 2027.
Na curva de juros, o fechamento de sexta-feira (6) mostra taxas que sobem conforme o prazo: cerca de 13,7% no vencimento de janeiro de 2027, 14,3% em janeiro de 2028, 14,7% em janeiro de 2029 e 15,0% em janeiro de 2035. A partir de 2028, o mercado precifica juros acima da Selic atual. É um retrato do momento, não uma previsão. O mercado, portanto, precifica juros acima da Selic atual por anos. Isso encarece o crédito e mantém a renda fixa atrativa, e é um retrato do momento, não uma previsão.
Atividade: indústria em queda e PIB de 2027 revisto
Em 5 de novembro, o IBGE informou que a produção industrial de setembro recuou 0,8% sobre agosto, pior que os 0,4% esperados. Desde maio, a queda acumulada é de 4,1%. Frente a setembro de 2025, a retração foi de 2,5%, com um dia útil a menos e base de comparação alta. Dezessete dos 25 ramos pesquisados caíram. No ano, a indústria ainda acumula alta de 0,4%, e de 0,2% em 12 meses.
Os bancos ajustaram as contas: a XP cortou a projeção de PIB de 2027 para 0,3% e o Bradesco, para 0,4%. As duas casas trabalham com IPCA de 5,5% em 2026 e 5,3% em 2027, acima do que a Selic atual costuma buscar.
Mercados na semana
| Indicador | Resultado da semana |
|---|---|
| Ibovespa | Fechou em 168.498 pontos, alta de 0,34%, primeira semana positiva após três de queda. No ano, acumula +4,58% |
| Dólar | Perto de R$ 5,51, alta de cerca de 1,2% na semana, o maior nível do ano |
| Nasdaq | Queda de 3,4% na semana |
A semana teve quatro pregões na bolsa brasileira, já que 2 de novembro foi feriado. O dólar fecha em níveis diferentes conforme a fonte (R$ 5,508 a R$ 5,5115); a PTAX do dia ficou em R$ 5,5013. O Ibovespa semanal aparece como +0,29% em algumas fontes.
A alta da semana tem um contexto: o Ibovespa vinha de seis quedas seguidas desde a reeleição de Lula, sequência que somou mais de 19% de perda. A primeira alta depois do segundo turno veio em 4 de novembro (+1,23%, a 167.563 pontos). A imprensa a atribuiu ao cenário externo, com a vitória democrata nos EUA, e à possibilidade de medidas de ajuste fiscal. Segundo analistas, também pesaram os preços descontados após a queda.
IA e eleições nos EUA: tombo da tecnologia
Os democratas tiveram grande vitória nas eleições de meio de mandato, em 3 de novembro. Em 5 de novembro, a Nasdaq caiu 5,52%, a pior sessão desde abril de 2025, e ficou mais de 10% abaixo do recorde de 6 de outubro. Cerca de US$ 2,5 trilhões em valor de mercado sumiram. O S&P 500 recuou 4,4% e o Dow Jones, 3,4%. Nvidia perdeu 9%, AMD 17% e o índice de semicondutores SOX, 12%.
Em 6 de novembro, o relatório de emprego (payroll) trouxe 165 mil vagas, contra 59 mil esperadas, com desemprego de 4,1%. O dado forte reforçou a leitura de juros altos por mais tempo: a Capital Economics vê espaço para uma alta de juros do Fed em dezembro.
Paraguai: Ueno Bank e queda de Peña
Em 3 de novembro, o Banco Central do Paraguai interveio no Ueno Bank, com 2,6 a 2,9 milhões de clientes e cerca de R$ 4,6 bilhões em depósitos. A solvência estava abaixo da metade do mínimo exigido. O presidente do BC, Carvallo, renunciou.
O presidente Santiago Peña, que foi acionista do banco até março de 2025, renunciou em 5 de novembro. Em 6 de novembro, o Senado aprovou seu impeachment por unanimidade (44 votos) e ele foi preso. O vice, Pedro Alliana, assumiu o cargo.
Dívidas: recorde de inadimplentes
A Serasa divulgou em 2 de novembro que o Brasil chegou a 84,2 milhões de pessoas negativadas em setembro, recorde da série. São cerca de 300 mil a mais que em agosto e 6% acima de setembro de 2025. As dívidas somam R$ 597,4 bilhões, com média de R$ 7.093,83 por pessoa.
Cripto: desdobramentos do hack na Binance
O ataque de 29 de outubro (US$ 6,3 bilhões) teve novos capítulos. O FBI atribuiu a ação ao grupo TraderTraitor, ligado à Coreia do Norte, que negou o envolvimento em 3 de novembro. Os saques foram retomados em 1º de novembro, com saída líquida de US$ 3,64 bilhões nas primeiras 9h30. A Binance reservou cerca de US$ 6,34 bilhões e disse ter reposto cerca de 95% dos ativos afetados.
Reforma tributária: CBS de 11,3% em 2027
A CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) é o novo tributo federal sobre o consumo, que vai substituir PIS e Cofins. O TCU calculou sua alíquota de referência em 11,3% para 2027, e o Radar JF destacou o cálculo em 5 de novembro. O valor ainda não está definido: cabe ao Senado fixá-lo por resolução até meados de dezembro. Se o Senado não votar, vale o cálculo do TCU, e a margem para mudança é pequena, porque reduzir a alíquota sem mexer nas exceções quebra a neutralidade da arrecadação. O número cresceu ao longo do processo: o governo calculava 8,8% em 2024 e o Comitê Gestor do IBS projetava 9,21% em julho de 2026. Num exemplo do regime híbrido do Simples, um produto de R$ 100 passa a R$ 108,32. Os créditos reduzem o custo para o cliente empresarial a R$ 97,32.
Leitura Jota Finanças
Os fatos da semana apontam na mesma direção: dinheiro caro, atividade fraca e cautela lá fora. Juros altos pesam sobre o crédito e a indústria. Dívidas em recorde mostram o custo disso no orçamento das famílias. Choques externos, como o tombo da tecnologia nos EUA, chegam ao bolso pelo câmbio. Esta é uma leitura educativa, sem recomendação de produto nem previsão de mercado.
Fontes
- Radar JF: CBS, Copom e cobertura geral; Senado Notícias, Poder360 e Contábeis: cálculo do TCU e histórico da CBS
- InfoMoney, Forbes Brasil, Agrolink e Banco Central (PTAX): fechamento de câmbio e Ibovespa
- IBGE (PIM-PF de setembro) e Serasa (inadimplência de setembro)
- Imprensa internacional e FBI: Nasdaq, payroll e hack da Binance
- Imprensa paraguaia e internacional: Ueno Bank e destituição de Peña
