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Número de inadimplentes bate recorde em plena era do crédito fácil

Número de inadimplentes bate recorde em plena era do crédito fácil

04 de nov. de 2026 · @José Paulo Bretas

Em agosto de 2026, 83,98 milhões de brasileiros estavam com o CPF negativado, o maior número já registrado pela Serasa. Foi a 20ª alta seguida. O ritmo, porém, foi o mais lento do ano: +0,06% em relação a julho.

O recorde, em números

Negativado é quem atrasou uma conta e teve o nome registrado em cadastro de devedores. É esse o sentido de “inadimplente” neste texto. Três números mostram o tamanho do problema dentro das famílias:

  • 82% das famílias têm alguma dívida (CNC, julho). Dever não é, por si só, um problema: financiamento, cartão e crediário fazem parte da vida.
  • 29,8% têm contas atrasadas. É aqui que o problema começa.
  • R$28,70 de cada R$100 que a família ganha vão para pagar dívidas (Banco Central, julho). Em média, quase três em cada dez reais da renda já chegam ao mês com destino definido.

A dívida vira problema quando a parcela passa a decidir o que cabe no resto do mês.

Os mais apertados

A dívida atinge todas as faixas de renda. O atraso pesa muito mais em quem ganha menos.

Renda da famíliaCom dívidaCom conta atrasada
Até 3 salários mínimos84,9%38,5%
Acima de 10 salários mínimos72%15,1%
Todas as famílias82%29,8%

Fonte: CNC (Peic), julho de 2026.

Na base da pirâmide, quase 4 em cada 10 famílias estão com conta vencida. No topo, são 15 em cada 100. A diferença na dívida é de 13 pontos; no atraso, de 23. Quem ganha menos deve um pouco mais, mas tem muito menos folga quando surge um imprevisto.

Em média, as famílias endividadas comprometem 29,5% do orçamento com dívidas, durante 7,2 meses. Por idade, as pessoas entre 41 e 60 anos concentram 35,8% dos negativados, e as de 26 a 40 anos, 33,2% (Serasa). Ou seja, a maior parte do problema está em quem está no auge da vida produtiva, não só nos mais jovens.

Cartão de crédito é onde a dívida fica cara

O cartão aparece na dívida de 85,3% das famílias endividadas, muito à frente do crediário (16,1%) e do crédito pessoal (13%) (CNC, julho). E é nele que está um dos juros mais altos do sistema financeiro, o do rotativo.

Tipo de cobrança no cartãoJuros ao ano (agosto)
Rotativo (quando você não paga a fatura inteira)444,9%
Parcelado pelo banco192,1%
Média do cartão97,8%

Fonte: Banco Central, agosto de 2026.

Os 444,9% ao ano são a taxa mensal acumulada por 12 meses, o que dá cerca de 15% ao mês: uma fatura de R$1.000 não paga vira cerca de R$1.150 em 30 dias. Na prática, quase ninguém fica um ano inteiro no rotativo, e desde janeiro de 2024 a lei limita juros e encargos a 100% do valor original da dívida. Mesmo assim, é o jeito mais caro de dever.

O número que assusta: 66,2%. Dois em cada três reais devidos no rotativo estão atrasados há mais de 90 dias, o pior nível desde março de 2011, segundo dados do Banco Central. Isso não quer dizer que 66% dos portadores de cartão estejam com dívida atrasada. O rotativo dura no máximo 30 dias. Quem consegue pagar sai logo dele, e o que sobra é um grupo pequeno, formado por quem não conseguiu sair. 

A Abecs, associação das empresas de cartão, diz que 85% das faturas continuam sendo pagas no vencimento. O risco está em quem deixa a fatura virar dívida.

Crédito ficou fácil. Pagar, não.

Hoje dá para comprar parcelado em um toque, pedir comida a prazo no aplicativo e contratar empréstimo pelo celular. O crédito às famílias cresceu 10,5% em 12 meses. A inadimplência subiu junto, e a economia comportamental ajuda a entender por quê.

1. O parcelado esconde o tamanho da compra. No 1º semestre de 2026, o crédito no cartão movimentou R$1,7 trilhão (+12%), enquanto o débito caiu 1,8% (Abecs). Quando a parcela cabe no mês, o cérebro esquece que a soma não cabe.

2. O consignado privado cresceu rápido, e o atraso dobrou. O Crédito do Trabalhador, lançado em março de 2025, levou a carteira de R$41,6 bilhões para R$117,7 bilhões. A inadimplência foi de 5,2% (set/2025) para 10,6% (ago/2026). Segundo a Serasa, 86% dos empréstimos foram feitos por trabalhadores nas faixas mais baixas de score, e 78% de quem contratou já tinha mais de 81% da renda comprometida.

3. O crédito agora mora dentro do aplicativo. O iFood Pago passou a oferecer saldo pré-aprovado e parcelamento de pedidos de comida e mercado. A própria empresa disse que o consumidor gasta mais quando parcela. Uma pesquisa da CNDL/SPC Brasil (junho de 2025) mostrou que 62% dos 800 consumidores online ouvidos compram por impulso, e 35% já atrasaram contas ou criaram dívida por gastos não planejados.

Por que isso funciona contra nós? 

A psicologia comportamental chama de viés do presente a tendência de dar mais peso ao prazer de hoje do que à conta de amanhã. Cada clique a menos entre o desejo e a compra reduz a “dor de pagar”. E a parcela pequena faz o gasto parecer menor do que é. O ambiente é desenhado para facilitar a decisão de comprar.

O que os dados provam e o que não provam

O que os dados mostram:

  • Em cinco anos, a inadimplência do crédito livre das famílias passou por duas ondas de alta. A atual, iniciada em 2025, já está cerca de 25% acima do pico de 2023 (6,47% em maio de 2023; 8,1% em setembro de 2026, nova máxima da série, segundo o Banco Central; em agosto, 8,01%). Os números se referem ao crédito com recursos livres das pessoas físicas, que inclui cartão, cheque especial e empréstimos pessoais, e não considera financiamento imobiliário.
  • Nas linhas em que o crédito cresceu mais rápido, como consignado privado e cartão, o atraso subiu forte.
  • Quem tomou esse crédito novo tem score baixo e renda já muito comprometida.

O que eles não provam

  • Que o crédito fácil seja a causa. Os juros também estavam altos: a Selic ficou em 15% ao ano até março de 2026 e caiu para 13,75% em setembro. Juro alto e renda apertada agem ao mesmo tempo que o crédito, e os dados disponíveis não separam um do outro.
  • Que o aumento medido pelo Banco Central seja todo real. Segundo o próprio BC, cerca de metade da alta recente vem de uma mudança de critério contábil: os bancos passaram a ter mais flexibilidade para dar baixa em dívidas como prejuízo.
  • Que a situação esteja piorando em todas as medidas. A parcela de famílias com conta atrasada ficou em 29,8% em julho, abaixo dos 30% de um ano antes. Foram fechados 19,7 milhões de acordos de renegociação entre maio e agosto (+36%), com valor médio de R$741.

O número de negativados é recorde, mas o ritmo de alta dos negativados diminuiu e o nível de dívida das famílias segue alto. 

O que fazer em 6 passos

  1. Calcule quanto da renda vai para dívidas. Some todas as parcelas do mês e divida pelo que entra. A média nacional é 28,7%. Quanto mais acima disso, menos folga para imprevistos.
  2. Trate o limite do cartão como autorização do banco, não como renda. Quem determina o que cabe no mês é o seu salário. Se a fatura já é financiada todo mês, renda futura já foi gasta.
  3. Evite o rotativo e o pagamento mínimo. O mínimo evita o atraso hoje, mas o resto da dívida segue com juros que chegam a cerca de 15% ao mês. Se não der para pagar a fatura inteira, compare as alternativas pelo custo total (o chamado CET, que soma juros e tarifas), não só pelo valor da parcela.
  4. Cuidado ao trocar dívida de cartão por consignado. O juro costuma ser menor, mas a inadimplência do consignado privado já está em 10,6%: a dívida muda de lugar, e o risco continua.
  5. Se já está negativado, renegocie, e mude o orçamento junto. Comece pelas dívidas mais caras (cartão e cheque especial) e pare de parcelar novas compras enquanto reorganiza. Segundo a Serasa, renegociar resolve o problema imediato, mas sem mudar o orçamento o ciclo tende a se repetir. O governo também lançou uma nova etapa do Desenrola, para dívidas em atraso entre 2 e 4,5 anos.
  6. Antes de parcelar, faça a pergunta do «e se fosse à vista?». Se você não compraria pagando hoje o valor total, a parcela está só escondendo o preço. É sugestão do JF, baseada no viés do presente, e não regra oficial.

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Não reaja ao recorde. Antes, pergunte-se: eu tenho um plano para as minhas dívidas?

Conteúdo educativo, sem recomendação individual. Para decisões sobre a sua dívida, procure um educador ou planejador financeiro.

José Paulo Bretas – Jota Finanças | Artigo 002

Fontes

Dados de julho a setembro de 2026. CNC, Serasa e demais dados de julho e agosto conferidos em 05/10/2026; inadimplência do crédito livre de setembro (8,1%) conferida em 04/11/2026 em reportagem da Folhapress com dados do Banco Central. A CNC mede famílias, a Serasa mede CPFs negativados e o Banco Central mede a carteira de crédito; os percentuais não devem ser somados nem comparados entre si.